Jabuti Piranga

Jabuti - Tartarugas AVPH
   O Jabuti Piranga ou Chelonoidis carbonaria cujo nome em Tupi-Guarani significa "O que come pouco vermelho", é um quelônio ou tartaruga terrestre que possui escamas avermelhadas na cabeça e nas patas, as quais deram origem ao seu nome piranga e em inglês Red-footed Tortoise (Tartaruga de pé vermelho).
   Originalmente essa espécie foi atribuída ao gênero Testudo, por Carl Linnaeus em 1758. Em 1835, Leopold Fitzinger incluíu no gênero Geochelone, para diferenciar das tartarugas terrestres mediterrânicas. Em seguida foi nomeada como Chelonoidis como um subgênero dos Geochelone, que incluía as espécies da América do Sul. Poucas pessoas usaram este termo, até que foram ressuscitados por Hewitt em 1933, Loveridge e Williams em 1957. Em 1982, Roger Bour e Charles Crumly, estudaram os Geochelones e conseguiram separá-los em diferentes gêneros, com base nas diferenças anatômicas, especialmente nos crânios. Isso resultou na criação ou restauração de vários gêneros como: Aldabrachelys, Astrochelys, Cylindraspis, Indotestudo, Manouria e Chelonoidis.

   O gênero Chelonoidis foi distinguido dos outros Geochelones pela sua localização na América do Sul e seu respectivo caminho evolutivo, bem como a ausência da placa nucal da carapaça (placa logo atrás o pescoço) e a presença de uma grande placa supra caudal (a placa da carapaça logo acima da cauda) e principalmente pelas diferenças no crânio.
   O nome da espécie carbonaria significa "similar a carvão", referindo-se a coloração escura do carvão que apresenta também manchas brilhantes. Ele foi originalmente identificado por Johann Baptist Von Spix em 1824.

   A carapaça dos jabutis é uma estrutura óssea formada pelas vértebras do tórax e pelas costelas revestidas com placas córneas que funcionam como uma caixa protetora onde o animal se recolhe quando é perturbado. Essa carapaça geralmente é oval e alongada, com as laterais quase paralelas. A carapaça é bastante abobadada com o ponto mais alto na altura dos quadris, com uma pequena inclinação sobre o pescoço e uma grande inclinação para a cauda. Os placas vertebrais e costais são pretas ou marrom escuro, com uma auréola amarela clara no centro de cada placa. As placas marginais (placas ao longo da borda da carapaça) são dobradas ao longo dos lados e inclinadas nas pernas. A placa nucal está ausente e os marginais sobre a cauda são unidos como uma grande supra caudal. Anéis de crescimento são claramente evidentes na maioria dos indivíduos, mas tornam-se desgastadas com a idade.
   O plastrão (parte inferior do casco) é grande e grosso ao longo das bordas. As placas gulares (par de placas frontais abaixo da cabeça) não se projetam muito além da frente da carapaça. O padrão de cor do plastrão depende da região que animal habita. A cabeça dos jabutis é relativamente pequena, com um perfil alongado e plana no topo, mais larga na base do que na ponta. O olho é grande, com uma íris preta e raramente em algumas variedades é visível coloração alaranjada em torno dela. A mandíbula superior é ligeiramente entalhado no meio da frente, possuindo quinze a vinte "dentes" ou ranhuras finas de cada lado da mandíbula. Um tímpano quase circular está localizada para trás e abaixo do olho e está coberto com uma escala escuro. As escamas da cabeça são geralmente pequenas e irregulares, tornando-se menores no pescoço. As escamas possuem cores que variam do amarelo claro a vermelho, especialmente aqueles no topo da cabeça, acima do tímpano, em torno das narinas, na mandíbula inferior e sobre os lados do pescoço. Os machos são geralmente um pouco mais coloridos do que as fêmeas e as cores variam dependendo da região.

   As patas são geralmente cilíndricas, com quatro garras nas patas dianteiras e cinco nas patas traseiras. Os membros anteriores são ligeiramente achatados e a superfície dianteira é coberta com grandes escamas, normalmente da mesma cor que a cabeça. As escamas não são tão grandes ou protuberantes, como ocorre em espécies mais primitivas como a Tartaruga de Esporas Africana (Geochelone sulcata). A cauda é muscular, variando em tamanho e forma, dependendo do sexo do animal e não tem qualquer tipo de garra na ponta.
   Os Jabutis pirangas possuem em média 30 a 35 centímetros de comprimento curvilíneo de carapaça (ccc), sendo os machos ligeiramente maiores que as fêmeas. Porém para animais com mais de 20 anos, 40 a 45 centímetros de ccc são bastante comuns e animais chegando ao final da vida (cerca de 80 anos) pode medir mais de 50 centímetros de ccc, pois eles não param de crescer durante a vida toda. Os maiores tamanhos já registrado são de 60 centímetros de ccc e cerca de 40 kilogramas.

   Os Jabutis piranga vivem em quase todo o continente sul americano, ocupando diversos tipos de habitats, variando desde o norte do continente, como o sudeste do Panamá, Venezuela, Guianas e Suriname; a oeste da Cordilheira dos Andes, como Colômbia, Equador, Peru e Bolívia; a leste como todo o litoral do Brasil e a sul como a Bolívia, Paraguai e possivelmente, norte da Argentina. Porém eles não ocupam toda está extensão de terras por completo, eles muitas vezes não são encontrados no Brasil central ou em áreas de florestas densas e não existe ocorrência documentada no Peru desde 1985.
   Esta espécies pode ser encontrada também em diversas ilhas do Caribe, embora não esteja claro, se eles são nativos das ilhas ou foram introduzidos pelo homem. Sendo encontrados nas Antilhas Holandesas, Trinidad, Tobago, Granada, Barbados, São Vicente, Granadinas, Santa Lúcia, Martinica, Dominica, Guadalupe, Ilhas Leeward, Ilhas Virgens e Porto Rico.

   Os jabutis se adaptam melhor a locais que possuem temperaturas sazonais bastante consistentes, variando entre 20°C a 35°C, com alta umidade e abundância de chuvas, embora consiga sobreviver bem em áreas secas, não se adaptando muito bem a locais frios e úmidos. Sendo freqüentemente encontrados em ou perto de áreas de transição entre floresta e cerrado, como clareiras, bordas da mata ou ao longo de cursos de água. Passam a maior parte do dia em abrigos, locais que ofereçam proteção contra predadores (como tocas de tatus e cutias, troncos ocos e abaixo de grandes coberturas vegetais) e em lugares que promovem a termorregulação ("tomando sol").
   Esta espécie é muito parecida com o Jabuti Tinga(Chelonoidis denticulata) o qual possuí coloração amarelada nas escamas das patas e da cabeça, nariz preto, coloração mais clara e maior porte, pois são.

   A diferença entre as duas espécies não é tão fácil quanto parece, pois existem diversas variações de cores e tamanhos nessas espécies, para uma análise mais precisa é necessário uma observação de certo detalhes que são caracteísticas únicas de cada espécie:
Jabuti piranga                                                                     Jabuti tinga               

             Jabuti - Tartarugas AVPH Jabuti - Tartarugas AVPH
Escudo gular curto da porção posterior da carapaça. Sutura mediana femoral geralmente mais longa que sutura mediana umeral. Inguinal bastante significante. Pré-frontais pequenas e partidas. Escudo gular curto da porção posterior da carapaça. Sutura mediana umeral geralmente mais longa que sutura mediana femoral. Inguinal bastante insignificante. Pré-frontais alongadas.
Escamas pré frontais
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Carapaças
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Escudos inguinais
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Escudos gular
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Jabuti piranga fêmea e Jabuti tinga macho
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Observa-se que a carapaça dos pirangas possuí laterais paralelas e o macho de tinga um formato de sino.

   Os jabutis piranga habitam diversas regiões, onde vivem em ambientes de florestas, campos e caatingas. Em cada uma desses habitats, as populações desenvolveram características distintas. Segundo Peter Pritchard foram reconhecidos sete tipos distintos de populações com características únicas. Porém pesquisas populacionais com base no DNA foram realizadas por Mario Vargas e Rameriz et al. e identificaram apenas cinco genótipos diferentes. As maiores diferenças foram encontradas entre as populações encontradas ao norte ou ao sul da bacia amazônica.
   Atualmente não há subespécies de jabuti piranga, porém existe uma grande variação de cor nesta espécie, gerando especulações sobre a existência de subespécies ou até ainda de outras espécies, dentre elas destacam-se:

   - O Jabuti do Nordeste que é o holótipo da espécie, possuindo cabeça e membros de cor geralmente laranja ao vermelho claro, sendo o plastrão principalmente amarelo claro. Habitam desde Venezuela, Guianas, Suriname e o norte e nordeste do Brasil.

   - O Jabuti do Noroeste é semelhante a do Nordeste, porém a cor da base da carapaça possuí tons cinza escuro, marrom escuro ou quase preto, o plastrão é pálido, com a área central escura, a cabeça e membros são geralmente de coloração que varia do amarelo claro ao laranja. O tamanho médio é um pouco menor do que o habitual, medindo de 30 a 35 centímetros de comprimento curvilíneo de carapaça. Habitam desde o Sudeste do Panamá até a Colômbia.
   O Jabuti piranga de Granada é uma raça menor de Jabuti piranga que se desenvolveu nas ilhas do Caribe a partir do Jabuti do Nordeste. Por serem menores quando adultos, apresentam cores mais contrastantes e vivas que os jabutis piranga comuns. As fotos são de um exemplar de 9 semanas de idade e a última foto é de um exemplar de 2 anos de idade.
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   - O Jabuti do Norte possuí as escamas da cabeça são geralmente de cor amarela a laranja claro, raramente vermelho, os membros possuem cores avermelhadas. O tamanho médio é também na faixa de 30 a 35 centímetros de comprimento curvilíneo de carapaça. Habitam a Colômbia, Equador e Peru.
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   - O Jabuti do Sul possuí as escamas da cabeça e dos membros de coloração amarelada, carapaça com a coloração variando do preto ao marrom escuro, com tons de cinza claro ou esbranquiçado entre as placas, o plastrão é predominantemente escuro com um padrão de manchas simétricas. Os membros anteriores apresentam uma escama maior no lado do "cotovelo" e os machos adultos não possuem a cintura apertada, sendo as fêmeas em média, um pouco maiores que os machos. O tamanho de ambos tende a ser maior, chegando em média a medir 50 a 60 centímetros de comprimento curvilíneo de carapaça e pesar 40 kilogramas. Habitam a Bolívia, Paraguai, norte da Argentina e oeste do Brasil (Mato grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná).
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   - O Jabuti da Mata Atlântica ou Jabuti Cabeça de Cereja ("cherry-head"), possuí as escamas da cabeça e membros de coloração vermelha ou laranja-avermelhada, a carapaça possuí tons cinza claro ou esbranquiçada entre as placas, o plastrão é predominantemente escuro apresentando manchas em um padrão simétrico. O tamanho tende a ser menor, em média, do que os animais encontrados no Nordeste, chegando em média a medir 25 a 30 centímetros de comprimento curvilíneo de carapaça. Os olhos são grandes, levemente saltados para fora, possuí uma íris preta que devido ao formato dos olhos, torna visível a coloração alaranjada em torno dela. Estudos indicam que elas também conseguem atingir a maturidade sexual com um tamanho menor. Habitam o sudeste do Brasil.
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   Outras variações que ocorrem na espécie, são originadas devido a variações genéticas naturais ou não, provocadas por meio de cruzamentos selecionados, gerando animais de belíssimas características:

   O Jabuti piranga branco que possuí uma coloração de carapaça bem clara, hipo melânica, com escamas vermelhas, laranjas ou amarelas nas patas e na cabeça. São resultados de seleções de animais claros com a intenção de produzir uma variação de coloração mais clara e de acidentes naturais que produziram animais claros por puro acaso.
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   O jabuti piranga vermelho que possuí alta coloração avermelhada é uma linda variação de cor resultante de várias gerações de cruzamentos de exemplares com cores vermelhas que se destacavam ao longo de vários anos.
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   O Jabuti piranga preto é resultado de uma alta concentração de pigmentos na pele. A segunda foto mostra um jabuti preto que nasceu de um casal de pais de cores normais, sugerindo que essa coloração escura tem origem em uma anomalia genética chamada hiper melanismo que nunca havia ocorrido no histórico familiar do casal. A pele e a carapaça apresentam cores cinza escuro e preto, o plastrão apresenta coloração alaranjada, na 3 e 4 foto podemos verificar a comparação de cor entre um jabuti comum e um preto.
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   O Jabuti piranga de carapaça cinza, possuí uma coloração cinza-azulada clara substituindo o preto, é uma bela coloração atingida com padrões claros de laranja e vermelho durante várias gerações.
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   O Jabuti piranga mel possuí uma coloração que foi atingida com várias gerações de intercruzamentos de jabutis que apresentassem coloração dourada e alaranjada, visando esta belíssima coloração.
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   O Jabuti piranga albino é gerado pelo gene recessivo do albinismo, o qual proporciona uma total ausência de pigmentos na pele e uma coloração única, totalmente branca. Porém esse fenômeno prejudica o desenvolvimento do animal, pois torna-o hipersensível aos raios solares, sendo necessário cuidados especiais para o seu mantenimento, possuindo inclusive grandes dificuldades para enxergar. Muitas vezes é necessário alimentar o animal oferecendo alimentos diretamente na boca. Por ser o albinismo gerado por um gen recessivo, todos os descendentes de um casal albino serão também albinos e de um albino com um animal normal serão portadores do gene.
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   O Jabuti piranga híbrido com Jabuti tinga, é o intercruzamento entre as duas espécies de tartarugas terrestres brasileiras, gerando um animal híbrido que possuí grande possibilidade de ser estéril, ou seja, de não conseguir se reproduzir mais. A coloração desses animais híbridos possuem aspectos das duas espécies, proporcionando uma beleza exótica.
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   Os Jabutis Piranga são onívoros, com intestinos superiores e inferiores com o mesmo comprimento e alimentam-se de vários tipos de folhas, flores, frutos, raízes, verduras e de proteína animal como pequenos invertebrados (como formigas, cupins, besouros, borboletas, lesmas, caracóis e minhocas) e carniça, em cativeiro recomenda-se carne em menor frequencia (uma vez por semana e com a mesma frequencia é necessário a inclusão no cardápio de suplementos alimentares principalmente cálcio). Rações bem desenvolvidas, especialmente para Jabutis e de marcas confiáveis, são altamente recomendadas, pois possuem um mix completo de nutrientes, proporcionando um bom crescimento ao animal. Na natureza quando ocorre excasses de alimentos elas se alimentam até de fezes de outros animais (especialmente de raposas). Em cativeiro acabam de alimentando de fezes de cães e gatos na falta de outros alimentos. Pedras e areia também são freqüentemente encontrados em pelotas fecais, pois em caso de falta de nutrientes em sua dieta elas procuram comer terras ricas em minerais para tentar suprir essas necessidades, principalemte de cálcio.
   A palavra chave na alimentação de jabutis é "diversificação". Sendo o melhor horário para se alimentar os jabutis as 15:00 hrs. É muito comum ocorrerem conflitos na hora de compartilhar os alimentos, mas são apenas conflitos pequenos, onde um animal tenta defender ou conseguir um melhor espaço para se alimentar e as vezes verifica-se os animais subindo em cima da comida para bloquear o acesso dos outros e tentar guardá-la para si mesmo.
   A preferência na alimentação também pode variar ao longo das estações do ano, pois em épocas chuvosas elas encontram com maior frequencia frutas a disposição e nas estações secas se alimentam com maiores quantidades folhas. Em épocas quentes as quantidades de alimentos a serem oferecidos devem ser maiores, pois o metabolismo do animal acelera e em épocas frias deve-se oferecer menor quantidade de alimentos pois o metabolismo diminuí.

   Para os animais adultos recomenda-se em média estes tipos de alimentos:
    - 85% da dieta deve se basear em vegetais, como: folhas de mostarda, folhas de beterraba, agrião, couve, rúcula, salsa, salsão, brócolis, alface, espinafre, repolho, amora, cenoura, pétalas de rosas, folhas e pétalas de hibiscos, sementes de feijão branco e feijão verde, ervilhas, lentilhas, milho, legumes variados, como a cenoura, beterraba, vagens, abóboras, batata doce, etc. Cada animal deve apresentar preferência por determinados alimentos, porém deve-se sempre variar para garantir uma boa alimentação, deve se ter cuidado com a alface, pois pode causar diarreia.
    -10% da dieta deve ser a base de frutas, como: uva, abacate, maçã, pêra, abacaxi, morango, manga, mamão, melão, banana, tomate, figo, melancia, amora, nectarina, pêssego, etc. Frutas são alimentos compostos de bastante vitaminas e açucares, sendo essencial para uma boa alimentação, porém deve-se evitar excesso de algumas frutas como o mamão, pois pode provocar problemas intestinais e o abacate que é muto gorduroso, sendo novamente importante a variação das frutas oferecidas.
    -5% da dieta deve ser composta de proteína animal, como: ração para tartarugas, suplementos alimentares, carne moída crua, ração de cachorro, ração de gato (em pequenas quantidades), ovos cozidos com casca, insetos (tenébrios, minhocas, lesmas, caramujos), etc. Apesar de apresentar a menor porcentagem na dieta alimentar recomendada, esse é um dos itens mais importantes, em filhotes a falta desses itens podem causar má formação do esqueleto, que por conseqüência, má formação do casco e como resultado, dores para o resto da vida do animal, problemas de locomoção, entre outros.

   Na natureza os jabutis são especialistas em procurar alimentos, costumam percorrer longas distâncias em busca de alimentos, cobrindo áreas que vão 0,63 a 117,5 hectares (1 hec = 10 mil metros quadrados), geralmente fazendo uma busca no padrão formato de "teia de aranha", centrada em torno de seus locais de descanso ou um recente local importante de alimentação onde houve grande queda de frutas. Eles geralmente se movem de forma metódica com velocidades próximas de 5 a 20 metros por hora, mas caso desejem avançar rapidamente, podem mover-se a até 100 metros por hora. Geralmente eles procuram por alimentos em zig-zag ou então longas distâncias (100 metros) em linha reta em um ritmo rápido. Mostrando preferência em deslocar-se em meio à coberturas de vegetais densas.

   Os machos de Jabuti Piranga são em geral maiores e mais coloridos que as fêmeas. A partir dos quatro anos de idade já podem ser diferenciados das fêmeas, onde o plastrão (parte inferior do casco) é côncavo (voltado para dentro) e nas fêmeas é plano ou bem pouco convexo, isto auxilia no posicionamento durante o acasalamento. Em idades inferiores aos 4 anos de idade, os machos ainda não apresentam a concavidade, sendo comumente confundidos com fêmeas. As caudas dos machos são longas e robustas, se comparadas com as das fêmeas que são curtas e cônicas. Normalmente devido o fato das caudas dos machos serem longas, elas ficam guardadas de lado quando em posição de descanso e as das fêmeas ficam posicionadas retas para baixo.
   As placas anais dos machos são mais abertas para permitir mais mobilidade a cauda do macho e as das fêmeas possuem abertura redonda, para permitir a saída dos ovos.


Fêmea                                                  Macho
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   A reprodução dos jabutis piranga ocorre na primavera e a partir dos 6 anos de idade, quando os machos começam a brigar entre si para acasalar com as fêmeas. Nessas brigas os machos batem seus cascos uns contra os outros e dão mordidas, porém dificilmente essas lutas causam lesões graves. Os machos são territorialistas e costumam brigar sempre que algum outro invade seu território. O macho vencedor ganha o direito de acasalar-se com as fêmeas, durante este processo o macho normalmente vocaliza sons característicos, porém nem sempre as fêmeas aceitam o macho vencedor, sendo então aconselhável manter sempre vários machos, para um grupo de fêmeas, aumentando assim as chances de acasalamento.
   O macho sobe na fêmea (a concavidade de seu plastrão ajuda no equilíbrio) e ele introduz seu pênis (que fica guardado em sua cauda) na cloaca dela. Nesse processo demorado pode ocorrer de o casal caminhar encaixado e como o pênis do macho está em contato com o solo, se o mesmo for abrasivo pode resultar em graves feridas.

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   A postura dos ovos ocorre cinco a seis semanas após o acasalamento e em geral ocorre na terra ou areia, começando em Abril a Junho, onde a fêmea cava um buraco de 10 a 20 centímetros de profundidade durante cerca de três horas e meia, onde as fêmeas da variedade de escamas na cabeça vermelhas e patas vermelhas colocam cerca de 1 a 6 ovos, enquanto a de escamas na cabeça amarelas e patas vermelhas colocam de 10 a 15 ovos por postura e depois os enterra. Elas depositam um ovo a cada 30 a 120 segundos e os ovos medem cerca de 4,2 a 5,0 centímetros de comprimento e pesam em torno de 50 gramas. Fêmeas novas ou inexperientes podem cavar parcialmente alguns buracos e abandoná-los sem efetuar a desova, vindo a desovar normalmente depois em outros buracos. Nesse período os machos devem ser separados para não perturbar as fêmeas. Quando os jabutis estão cavando o buraco e encontram dificuldade causada pela terra dura, urinam com intermitência para molhar e facilitar a cavação; o odor da urina atrai o macho e esse monta tentando cruzar, motivo de sua retirada antecipada. A terra úmida e muito sombreada causa podridão dos ovos. A terra deve ser frouxa e de preferência arenosa para facilitar a cavação. No momento da postura as fêmeas procuram camuflar o ninho, fazendo ninhos escondidos embaixo de plantas, folhas, capins. Passado o período da postura o local onde foi posto os ovos deve permanecer sem animais para não compactar o solo, o que dificultaria a saída dos filhotes. Após a postura deve-se verificar se não ficaram ovos para fora dos buracos e enterrá-los na mesma posição (sem virá-los) com 5 cm de terra arenosa caso necessário. Após as desovas as fêmeas geralmente tomam um longo gole de água e em seguida, encontram um abrigo para descansarem. Os jabutis podem ser reproduzir durante toda a sua fase adulta porém a quantidade de ovos e a viabilidade deles melhora à medida que a tartaruga amadurece e então começa a se reduzir a medida com que a idade avança.

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   A incubação dura de 24 a 36 semanas (6 á 9 mesês) e normalmente nascem de 5 a 7 jabutizinhos. Na natureza os ovos costumam ser atacados por cobras, lagartos e pequenos mamíferos e ao nascerem também continuam vulneráveis, pois a mãe não cuida de seus filhotes e quando novos seus cascos ainda não são duros e fortes o suficiente, sendo seus maiores predadores as raposas, gambás, lagartos teiús, porcos, cães e gatos selvagens, aves predadoras, quatis e ratos, em cativeiro são geralmente atacados por cães, os quais dependendo do porte possuem força na mordida suficiente para quebrar carapaças. Os adultos são geralmente predados por seres humanos e onças pintadas. Os recém nascidos possuem carapaça bem redonda e plana, de coloração mais amarelada e marrom, possuem um "dente" pontudo logo abaixo do nariz próprio para abrir o ovo. E após abrirem o ovo, eles permanecem no ovo, se alimentando do vitelo (gema) e esperando suas carapaças se endireitarem. Nascem com cerca de 3,6 a 6,3 centímetros e após saírem do ovo, permanecem no ninho por vários dias, esperando principalmente um período de chuva, no qual a terra se torna mais mole para então poderem escavar e sair. Durante o crescimento são acrescentados anéis escuros ao redor do centro claro de cada placa. As placas marginais desses jovens são serrilhadas, principalmente nos membros posteriores, isso provavelmente ajuda na camuflagem e dificulta que sejam comidos por outros animais. Os jovens são geralmente mais coloridos.
   As doenças mais comuns apresentadas são: no caso de temperaturas abaixo do ideal podem apresentar pneumonia, manifestada através de secreção nasal e pelo comportamento do animal ficar com a cabeça constantemente elevada. Podem apresentar desprendimento dos escudos córneos da carapaça (deixando exposto o osso) por excesso de umidade que acarreta infecções por fungos ou bactérias. A descalcificação e alteração do formato do casco é comum se mantidos sem iluminação correta. Podem sofrer corrosão do plastrão e conseqüente infecção se mantido em superfícies ásperas. Podem ocorrer também doenças como o prolapso do reto e do pênis (em machos) ou a retenção de ovos (nas fêmeas). Porém as principais doenças estão ligadas a alimentação inadequada que podem favorecer diarreias (excesso de mamão e alface), avitaminoses por oferecimento de alimentos inadequados (pode ocasionar inchaço do globo ocular e raquitismo) e descalcificação por falta de suplemento de cálcio (casco mole, tremedeiras e impossibilidade de deslocamento). Falta de vitamina A causa um mal comum aos Jabutis, olhos inchados e com secreção similar a uma conjuntivite, que pode ser Curada ministrando ao animal vitamina A, que pode ser encontrada nas cenouras ou em complexos vitamínicos. Os olhos devem ser limpos diariamente com água boricada e pomadas oftálmicas podem ser aplicadas ( como por exemplo uma chamada Epizan, é muito importante consultar um veterinário antes de aplicar qualquer medicamento aos seus animais).

   A História evolutiva do gênero Chelonoidis inicia-se com uma espécie de origem africana, a qual os estudos genéticos apontam como parentes mais próximos dos Chelonoidis, as Tartarugas terrestres do gênero Kinixys. Elas teriam cruzado o Oceano Atlântico jovem, que era menor naquela época, há aproximadamente 40 milhões de anos atrás, devido a sua capacidade de flutuar, resistir à água salgada e ficar sem comida por longos períodos de tempo. Acredita-se que alguns animais podem ter saído do litoral do Congo e vindo juntamente com a corrente marítima oceânica parar nas costa do nordeste brasileiro. Esses animais tiveram que se adaptar ao meio, dando origem ao "Chelonoidis ancestor", que ao iniciar a conquista do novo continente, se dividiu em algumas espécies, umas foram para o norte e outras para o sul da América do sul, durante o Oligoceno entre 38 e 22,5 milhões de anos atrás (Auffenberg 1971, Caccone et al 1999, Le et al 2006 e Fritz & Bininda-Emonds 2007).
   Formando então os dois grandes grupos atualmente existentes, o grupo carbonaria e o grupo chilensis: o Grupo Carbonaria é representado pela chelonoidis hesterna, que viveu há cerca de 5 milhões de anos atrás na região amazônica. Essa espécie se adaptou a ambientes de florestas densas originando os atuais Jabutis tinga e se adaptou a ambientes de campos e cerrados dando origem aos atuais Jabutis pirangas. O Grupo Chilensis é representado pela Chelonidis gringorum que migrou para a Patagônia Argentina há 20 milhões de anos atrás dando origem as atuais Tartarugas do Chaco (Chelonoidis chilensis), um dos descendentes do Chelonidis gringorum, migrou para o norte entre 12 a 6 milhões de anos atrás, chegando as Ilhas Galápagos entre 5,0 a 1,8 milhões de anos atrás, dando origem as atuais Tartarugas Gigantes de Galápagos (Chelonoidis nigra), os ancestrais das Tartarugas Gigantes de Galápagos se extinguiram do continente há cerca de 10 mil anos atrás (Caccone et al 1999 e Auffenberg 1971).


Dados do Quelônio:
Nome: Jabuti Piranga
Nome Comum: Jabuti Piranga, Jabuti, Carumbé ou Karumbe (Paraguai), Wayapopi ou Morrocoy (Venezuela, Colômbia)
Nome Científico: Chelonoidis carbonaria
Época: Holoceno
Local onde Vive: América do Sul e Central
Peso: Cerca de 40 kilogramas
Tamanho: 60 centímetros de comprimento
Alimentação: Onívora

Classificação Zoológica
Filo: Chordata
Classe: Reptilia
Ordem: Chelonia
Subordem: Cryptodira
Família: Testudinidae
Gênero: Chelonoidis
Espécie: Chelonoidis carbonaria, Spix, 1824

Sinonimos:
- Testudo carbonaria, Spix, 1824
- Testudo boiei, Wagler, 1833
- Geochelone (Chelonoidis) boiei, Fitzinger, 1835
- Chelonoidis boiei, Fitzinger, 1843
- Testudo tabulata var. carbonaria, Luederwaldt, 1926
- Geochelone carbonaria, Williams, 1960
- Chelonoides carbonaria, Obst, 1978
- Chelonoidis carbonaria, Bour, 1980
- Geochelone carbonaria carbonaria, Stubbs, 1989
- Testudo carbonariai Paull, 1999 (ex errore)
- Chelonoidis carbonaria carbonaria, Artner, 2003

Referências Bibliográficas:
- Bjorndal, Karen A. (March 1989). "Flexibility of digestive responses in two generalist herbivores, the tortoises Geochelone carbonaria and Geochelone denticulata".
- Crumly, Charles (1982). "A cladistic analysis of Geochelone using cranial osteology". Journal of Herpetology.
- Ebenhack, Amanda (2009). Redfoots and Yellowfoots; The Natural History, Captive Care, and Breeding of 'Chelonoidis carbonaria' and 'Chelonoidis denticulata' (Turtles of the World, Testudinidae, Number 3).
- Merchan, Manuel; Ana M. Fidalgo, Cesar Perez (1998). "Biology, Distribution and Conservation of the Redfoot TortoiseGeochelone carbonaria". Reptilia.
- Moskovits, Debra K. (1985). "The Behavior and Ecology of the Two Amazonian Tortoises, Geochelone carbonaria and Geochelone denticulata, in Northwestern Brazil". University of Chicago. PhD Dissertation.
- Paull, Richard C. (1997). The Great Red-foot Tortoise, Tortoises of the World Vol. 4. Green Nature Books.
- Pingleton, Mike (2009). The Redfoot Manual; A Beginners Guide to the Redfoot Tortoise.
- Pritchard, Peter C. H.; Pedro Trebbau (1984). The Turtles of South America, Contributions to Herpetology: No. 2. Society for the Study of Amphibians and Reptiles.
- Strong, Joel N.; Jose M. V. Fragoso. "Seed Dispersal by Geochelone carbonaria and G. denticulata in Northwestern Brazil".
- Vargas-Ramirez, Mario; Jerome Maran, Uwe Fritz (2010). "Red- and yellow-footed tortoises, Chelonoidis carbonaria and C. denticulata (Reptilia: Testudines: Testudinidae), in South American savannahs and forests: do their phylogeographies reflect distinct habitats?". Organisms, Diversity and Evolution.
- Vinke, Thomas; Sabine Vinke (2003). "An Unusual Survival Strategy of the Red-footed Tortoise Geochelone carbonaria in the Chaco Boreal of Paraguay".
- Vinke, Sabine; Holger Vetter, Thomas Vinke, Susanne Vetter (2008). South American Tortoises (Chelonian Library Vol. 3).